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Pastorais e Movimentos



Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo - Missa da Noite Imprimir E-mail
por Redação   

A liturgia desta noite fala-nos de um Deus que ama os homens; por isso, não os deixa perdidos e abandonados percorrendo caminhos de sofrimento e de morte, mas envia “um menino” para lhes apresentar uma proposta de vida e de liberdade. Esse menino será “a luz” para o povo que andava nas trevas.

A primeira leitura anuncia a chegada de “um menino”, da descendência de Davi, dom de Deus ao seu Povo; esse “menino” eliminará a guerra, o ódio, o sofrimento e inaugurará uma era de alegria, de felicidade e de paz sem fim.

A segunda leitura lembra-nos as razões pelas quais devemos viver uma vida cristã autêntica e comprometida: porque Deus nos ama verdadeiramente; porque este mundo não é a nossa morada permanente e os valores deste mundo são passageiros; porque, comprometidos e identificados com Cristo, devemos realizar as obras d'Ele.

O Evangelho apresenta a realização da promessa profética: Jesus, o “menino de Belém”, é o Deus que vem ao encontro dos homens para lhes oferecer - sobretudo aos pobres e marginalizados - a salvação. A proposta que Ele traz não será uma proposta que Deus quer impor pela força; mas será uma proposta que Deus oferece ao homem com ternura e amor.


Primeira Leitura - Livro do profeta Isaías (Is 9,1-6 )


É Jesus que dá sentido a esta “profecia messiânica”. Ele é o “menino” anunciado por Isaías, dom de Deus aos homens para inaugurar o mundo do direito e da justiça, da paz e da felicidade para todos. O nascimento de Jesus significa que, efetivamente, este “reino” encarnou no meio dos homens.


1O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu.
2Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença, como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos.
3Pois o jugo que oprimia o povo, - a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais - tu os abateste como na jornada de Madiã.
4Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas.
5Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz.
6Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para todo o sempre. O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar essas coisas.
Palavra do Senhor


Salmo Responsorial - Salmo 95


Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.
Cantai ao Senhor Deus um canto novo,
cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!
Cantai e bendizei seu santo nome!
Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.
Dia após dia anunciai sua salvação,
manifestai a sua glória entre as nações,
e entre os povos do universo seus prodígios!
Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.
O céu se rejubile e exulte a terra,
aplauda o mar com o que vive em suas águas;
os campos com seus frutos rejubilem
e exultem as florestas e as matas
Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.
na presença do Senhor, pois ele vem,
porque vem para julgar a terra inteira.
Governará o mundo com justiça,
e os povos julgará com lealdade.
Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.


Segunda Leitura - Carta de São Paulo apóstolo a Tito ( Tt 2,11-14)


Aprendemos, com Jesus, a ter um olhar crítico sobre os valores que o mundo nos propõe e a confrontar, dia a dia, a nossa vida com os valores do Evangelho?


Caríssimo:
11A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens.

12Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, 13aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.
14Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem.
Palavra do Senhor


Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 2,1-14)


Jesus - o Jesus da justiça, do amor, da fraternidade e da paz - já nasceu de forma efetiva na vida de cada um de nós, nas nossas casas religiosas, nas nossas comunidades cristãs?


1Aconteceu que, naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra.
2Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. 3Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal.
4Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, 5para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
6Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, 7e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.
8Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho.
9Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. 10O anjo, porém, disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”.
13E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da coorte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: 14“Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”.
Palavra da Salvação.


Comentário - O povo que andava nas trevas viu uma grande luz


1. Eis que de novo chegou a hora deste maravilhoso acontecimento: completaram-se os dias para Ela dar à luz e teve o seu Filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver para eles lugar na hospedaria (Lc. 2, 6 -7). Perguntamo-nos: é acontecimento insólito? Quantas crianças nascem em toda a terra durante 24 horas, enquanto em algumas partes do mundo é dia e noutras é noite! Certamente, cada um desses momentos é alguma coisa de insólito; é cada vez alguma coisa de único - para um pai, e sobretudo para uma mãe - nascer uma criança especialmente se trata da primeira, do filho primogênito.

Aquele momento é sempre coisa grande. Todavia - dado que se realiza continuamente em qualquer lugar do mundo, em todas as horas do dia e da noite o nascimento do homem, no seu aspecto estatístico, é ainda ao mesmo tempo algo de comum e normal.

Também o nascimento de Cristo parece entrar nesta dimensão estatística, tanto mais que a ele se une, segundo a narrativa de São Lucas, a menção dum recenseamento, realizado nas terras governadas pelo imperador romano César Augusto; o evangelista explica que, para a aldeia habitada por Maria e José, a ordem do recenseamento veio do governador da Síria, Querendo.

A tal acontecimento fazemos referência todos os anos, e fazemo-la como hoje, reunindo-nos nesta noite. Ora, se neste acontecimento há alguma coisa de insólito, talvez esteja em não se realizar nas habituais condições humanas, debaixo do teto duma casa, mas num estábulo, que ordinariamente recebe apenas animais. O primeiro berço do Divino Recém-nascido, de fato, é uma manjedoura.

Esta noite, reunimo-nos para fazer companhia ao Menino duma Mulher pobre, nascido num estábulo e deitado numa manjedoura.

2. Certamente nenhum dos habitantes, nem dos recém-chegados, presentes então em Belém, podia pensar que naquele momento e naquele estábulo se estava realizando as palavras do grande Profeta, muitas vezes relidas e continuamente meditadas pelos filhos de Israel.

Isaías escrevera, na verdade, palavras que formam o conteúdo duma grande Expectativa e duma inflexível Esperança:

Multiplicastes a alegria,
aumentastes o júbilo.
Rejubilam na vossa presença
como exultam no tempo da colheita ...
É que um menino nasceu para nós,
um filho nos foi concedido.
Tem o poder sobre os ombros ...
o poder será engrandecido
numa paz sem fim
para o trono de David e seu reinado,
a fim de o estabelecer e tornar firme,
por meio do direito e da justiça.
A partir de agora e por todo o sempre
(Is. 9, 2.5-6).

3. Nenhum dos presentes em Belém podia pensar que exatamente naquela noite as palavras do grande Profeta estavam se realizando, nem que a profecia estava sendo cumprida num estábulo, habitação ordinária de animais. Isto por não haver para eles (Maria e José) lugar na hospedaria (Lc. 2, 7).

4. Contudo há certos elementos, certas alusões nas palavras de Isaías, que já nesta noite parecem realizar-se à letra. Isaías escrevera:

O povo que andava nas trevas
viu uma grande luz;
aos que habitavam na região tenebrosa
resplandeceu uma brilhante luz
(Is. 9, 2).

Ora, toda Belém e toda a Palestina naquele momento é «região tenebrosa» e os seus habitantes estavam dormindo. Mas fora da cidade - como lemos no Evangelho de Lucas - na mesma região encontravam-se uns pastores, que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite (Lc. 2, 8). Os pastores são filhos daquele «povo que anda nas trevas» e ao mesmo tempo são os representantes escolhidos para aquele momento, escolhidos «para ver a grande luz». Exatamente isto, na verdade, escreve São Lucas sobre os pastores de Belém: O anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles, e tiveram muito medo (Lc. 2, 9).

E da profundidade daquela luz, que lhes vem de Deus, e na profundidade daquele medo, que é a resposta dos corações simples à Luz Divina, chega a voz:

Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria ...: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador que é o Messias Senhor (Lc. 2, 10-11).

Estas palavras devem ter produzido grande alegria nos corações daqueles homens simples, educados e alimentados, como todo o Povo de Israel, por uma grande Promessa, na tradição da expectativa do Messias. E justamente diz o Mensageiro que esta alegria será para todo o povo (Lc 2, 10), isto é, exatamente para aquele Povo de Deus, que «andava nas trevas», mas não se cansava de pensar na Promessa.

5. Era necessário, precisamente naquela noite, um Mensageiro que levasse ao estábulo e à manjedoura de Belém a «grande luz» da profecia de Isaías. Era necessária esta luz, era necessária a manifestação da glória  (Tt. 2, 13) - escreve São Paulo -, para se poder ler bem o Sinal: Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura (Lc. 2, 12). E os pastores de Belém, pessoas simples sem letras, leram muito bem o Sinal. Foram os primeiros, precederam todos aqueles que o leram em seguida e o relêem ainda agora. Foram as primeiras testemunhas do Mistério. Nós, que nesta noite enchemos a Basílica de São Pedro, e todos os que em qualquer lugar estão presentes na Missa da Meia-Noite, aproveitamos o testemunho que eles deram. Não sem motivo é chamada, nalgumas regiões, esta Missa da Meia-Noite, «Missa dos pastores».

6. Recordemo-nos que é a noite do Mistério, embora se pudesse apreciar doutro modo o acontecimento de aparecer a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador (Tt. 2, 13) com o nascimento do Menino, quando Ele passou da Virgem para o mundo, e quando na noite do seu nascimento não teve à disposição um teto de casa sobre a cabeça, mas só uma manjedoura.

Ora, tendo-nos reunido aqui como participantes do primeiro testemunho dado pelos pastores de Belém àquele Mistério, procure-mos refletir a fundo sobre ele.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc. 2, 14).

Estas palavras provêm da mesma luz, que brilhou aquela noite no coração dos homens de boa vontade.

Deus revê-se nos homens.

Esta noite representa um testemunho particular da divina complacência no homem. Não o criou Deus à sua imagem e semelhança? As imagens e as semelhanças cria-as alguém para ver nelas o reflexo de si mesmo. Por isso, olha para elas com complacência.

Deus não encontrou acaso complacência no homem, se, depois de o criar, o considerou coisa muito boa (Gén. 1, 31)?

E eis que em Belém estamos no auge dessa complacência. O que sucedeu então, pode acaso exprimir-se doutro modo?

É possível compreender diversamente o Mistério, pelo qual o Filho de Deus assume a natureza humana e nasce como Criança do seio da Virgem? É possível reler doutro modo este Sinal?

7. E por isto que, na noite do Natal, diversos povos começam um grande cântico. Difunde-se todos os anos, inspirado no mesmo estábulo de Belém. Ressoa nos lábios dos homens de muitas terras e muitas raças. Ressoa o grande cântico da alegria e assume formas diversas. Cantam na Itália, cantam na Polônia, cantam em todas as línguas e nos vários dialetos, em todos os países e continentes.

Os homens, então, despertam; o homem acorda, «pastor do seu destino» (Heidegger).

Deus compraz-se no homem.

Quantas vezes é o Homem esmagado por este destino! Quantas vezes fica prisioneiro dele! Quantas vezes morre de fome, quantas vezes está perto do desespero, quantas vezes é ameaçado na consciência que tem da significação da própria humanidade! Quantas vezes apesar de todas as aparências - está o homem longe de comprazer-se em si mesmo!

Mas hoje ele acorda e ouve o anúncio:

Deus nasce na história humana.
Deus compraz-se no homem,
Deus tornou-se homem,
Deus compraz-se em ti!
Amém.


Missa da Meia Noite
Homilia de João Paulo II
Natal, 24 de Dezembro de 1979