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Pastorais e Movimentos



IV Domingo do Advento Imprimir E-mail
por Conrado Bueno Bueno   

A liturgia deste IV Domingo do Advento diz-nos, fundamentalmente, que Jesus é o “Deus-conosco”, que veio ao encontro dos homens para lhes oferecer uma proposta de salvação e de vida nova.

Na primeira leitura, o profeta Isaías anuncia que Jahwéh é o Deus que não abandona o seu Povo e que quer percorrer, de mãos dadas com ele, o caminho da história… É n’Ele (e não nas sempre falíveis seguranças humanas) que devemos colocar a nossa esperança.

O Evangelho apresenta Jesus como a encarnação viva desse “Deus conosco”, que vem ao encontro dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação. Contém, naturalmente, um convite implícito a acolher de braços abertos a proposta que Ele traz e a deixar-se transformar por ela.

Na segunda leitura, sugere-se que, do encontro com Jesus, deve resultar o testemunho: tendo recebido a Boa Nova da salvação, os seguidores de Jesus devem levá-la a todos os homens e fazer com que ela se torne uma realidade libertadora em todos os tempos e lugares.


Primeira Leitura - Leitura do Livro de Isaías (Is 7,10-14)


O fato decisivo, neste texto, é a afirmação de que Deus não abandona o seu Povo, mas que é e será sempre o “Deus-conosco”. A próxima celebração do nascimento de Jesus recorda e celebra esse fato fundamental: Deus ama-nos de tal forma que continua a vir ao nosso encontro… Neste tempo de espera da vinda, somos convidados a tomar consciência do amor de Deus, que se manifesta numa presença permanente a nosso lado; com Ele a dar-nos a mão e a palmilhar conosco a estrada da vida, podemos enfrentar todos os desafios.


Naqueles dias:
10O Senhor falou com Acaz, dizendo:
11'Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal,
quer provenha da profundeza da terra,
quer venha das alturas do céu'.
12Mas Acaz respondeu:
'Não pedirei nem tentarei o Senhor'.
13Disse o profeta:
'Ouvi então, vós, casa de Davi;
será que achais pouco incomodar os homens
e passais a incomodar até o meu Deus?
14Pois bem, o próprio Senhor vos dará um sinal.
Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho,
e lhe porá o nome de Emanuel.
Palavra do Senhor.


Salmo Responsorial - Salmo 23


O rei da glória é o Senhor onipotente;
abrí as portas para que ele possa entrar!

Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra,
o mundo inteiro com os seres que o povoam;
porque ele a tornou firme sobre os mares,
e sobre as águas a mantém inabalável.

O rei da glória é o Senhor onipotente;
abrí as portas para que ele possa entrar!

Quem subirá até o monte do Senhor,
quem ficará em sua santa habitação?
Quem tem mãos puras e inocente coração,
quem não dirige sua mente para o crime.

O rei da glória é o Senhor onipotente;
abrí as portas para que ele possa entrar!

Sobre este desce a bênção do Senhor
e a recompensa de seu Deus e Salvador'.
É assim a geração dos que o procuram,
e do Deus de Israel buscam a face'.

O rei da glória é o Senhor onipotente;
abrí as portas para que ele possa entrar!


Segunda Leitura - Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 1,1-7)


Ser cristão é ser chamado a testemunhar no mundo essa proposta de vida nova e de liberdade, que nos é proposta. Não se trata de aceitar fórmulas de fé cobertas de poeira, nem de estudar nos livros um sistema filosófico ou teológico coerente, que ensinamos com lógica e com alguma pedagogia; trata-se de trazer ao mundo uma proposta viva, transformadora, libertadora, da qual damos testemunho com palavras e com gestos concretos. É isso que acontece? O meu testemunho é transformador e libertador para os meus irmãos escravizados?


1Eu, Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por vocação,
escolhido para o Evangelho de Deus,
2Esse Evangelho, que Deus havia prometido,
por meio de seus profetas, nas Sagradas Escrituras,
3e que diz respeito a seu Filho,
descendente de Davi segundo a carne,
4autenticado como Filho de Deus com poder,
pelo Espírito de Santidade que o ressuscitou
dos mortos, Jesus Cristo, Nosso senhor.
5É por Ele que recebemos a graça da vocação
para o apostolado,
a fim de podermos trazer à obediência da fé
todos os povos pagãos,
para a glória de seu nome.
6Entre esses povos estais também vós,
chamados a ser discípulos de Jesus Cristo.
7A vós todos que morais em Roma,
amados de Deus e santos por vocação,
graça e paz da parte de Deus, nosso Pai,
e de nosso Senhor, Jesus Cristo.
Palavra do Senhor.

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus (Mt 1,18-24)


Esse Jesus que esperamos é - de acordo com a catequese que a primitiva comunidade cristã nos apresenta por intermédio de Mateus - o “Deus que vem ao encontro dos homens”, para lhes oferecer a salvação. A festa do Natal que se aproxima deve ser o encontro de cada um de nós com este Deus; e esse encontro só será possível se tivermos o coração disponível para O acolher e para abraçar a proposta que Ele nos veio fazer. É isto que acontece?


18A origem de Jesus Cristo foi assim:
Maria, sua mãe, estava prometida em casamento
a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo.
19José, seu marido, era justo
e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo.
20Enquanto José pensava nisso,
eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho,
e lhe disse: 'José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa,
porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo.
21Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus,
pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados'.
22Tudo isso aconteceu para se cumprir
o que o Senhor havia dito pelo profeta:
23'Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho.
Ele será chamado pelo nome de Emanuel,
que significa: Deus está conosco.'
24Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado,
e aceitou sua esposa.

Palavra da Salvação.


Comentário - Companheira da espera


Maria

Maria, Virgem grávida, Virgem do Bom Parto, Maria da Esperança, Nossa Senhora da Esperança. Depois do profeta e o Batista, Maria, é a melhor parceira do Advento. Quem melhor quem esperou “com inefável amor de mãe”? Seu Advento foi não de quatro semanas mais de nove meses.

Que bela a imagem de Virgem Maria com o menino em seu ventre, que habita em sua carne. Assim, o seio de Maria desperta mil metáforas: é a forma e molde de Deus, é o cofre divino, é o sacrário dentro do qual está latente o Menino que vai nascer. A Virgem, desde sua doce pequenez, é o ícone mais feliz do Advento. Não é estranho que o povo cante nestes dias: “A Virgem sonha caminhos e está à espera”. “Santa Maria da esperança mantém o ritmo de nossa espera”.

O berço está vazio, mas logo “amanhecerá o Senhor na humildade de nossa carne”. Enquanto, ficamos na contemplação da Virgem grávida, a ponto de entregar-nos a alegria do fruto bendito de seu ventre.

A concepção de Jesus foi assim

Neste ano toca a São Mateus apresentar-nos a Maria na expectativa do nascimento de Jesus. Primeiro, o mistério: antes de viver juntos, esperava um filho por obra do Espírito Santo. Depois vem o desconcerto de São José; é o momento da dúvida deste homem justo e religioso. Não era simples seu zelo em não saber qual era seu papel em tal situação. Ao final, Deus rompe o silêncio, e tudo se aclara: vem do Espírito Santo e salvará a seu povo. José foi encarregado de por o nome de Jesus neste Menino. E lembremos que pôr o nome é se fazer “pai legal”. Agora, todas as peças se ajustam.

Isaías projeta mais luz sobre o mistério. Por José, entronca Jesus com a linhagem de Davi, entronca com a história da espera e as promessas do Antigo Testamento. Assim, toma corpo o prometido a Davi: de tua descendência sairá o Messias Salvador. O menino que vai nascer é filho de Davi, nasceu numa família, dentro da história, com raízes, nome e sobrenome. Sim, é evidente que o filho que Maria vai dar à luz é Emmanuel, o “Deus conosco”.

Esta palavra cumpre-se hoje - Emmanuel, Deus conosco.

Nas imagens mais expressivas de Maria, a Virgem leva Jesus, como um oferecimento, maternal e permanente, de Deus aos homens.

Maria é figura da Igreja. Também a Igreja - os homens e mulheres da Igreja - tem de estar grávida, carregada de Deus. Pode ter uma tarefa mais inevitável e formosa que, como a Virgem  Maria, anunciar e oferecer a Deus aos demais?

Um Deus que floresce na carne de uma mulher, um “Deus conosco”; tem aqui a imagem exata, redonda, do Deus que nos ama, nos procura, nos agüenta; não só o Deus todo-poderoso senão “todo misericordioso”. Se o Menino que nasce está “conosco”,  é o Deus próximo, amigo, intimo; nunca estará “em frente de nós:” normativo, temido, acusador. Quem falará de alienação quando do divino falamos? Repetiremos como São Leão Magno: “Deus faz-se homem para que o homem se faça Deus”.

A Encarnação é a loucura do amor de Alguém que infinitamente nos quer. Qualquer anjo poderá nos recordar: “O Senhor está contigo”. E nós cremos, e nos abrimos, sinceros, necessitados, contentes.

Por isso, com que esmero devemos nos interrogar na Igreja: Que Menino oferecemos? Que imagem de Deus brilha em nossos gestos e palavras? Por nós, que ninguém possa exclamar que “estamos deixados da mão de Deus”. Estamos em suas mãos e em seu coração.

Menos queixas

Caímos em conta das vezes que criticamos o consumismo e o secularismo, que desvirtuam o Natal? Porém se não serve para nada, a não ser para aparecer como resmungões e estraga-prazeres.

Vamos “olhar positivamente”. Vamos nos alegrar com a mística do mistério do Natal que professamos desde nossa fé. Vamos vivê-lo com convicção e alegria, para que por contágio, outros possam nos acompanhar para viver juntos esta Páscoa. Os crentes que se envolvem nas atitudes da Virgem: confiança, agradecimento, abertura, júbilo, não deixarão indiferentes a familiares e amigos. É será  cumprido o que nos manda o Vaticano II: “A Igreja tem de dar razões para viver e esperar”.

Por trás da mística virá, sim, a família unida, a festa, as felicitações, a abundância de alimentos e presentes. Cada coisa em seu lugar. E sem esquecer aos pobres.

Apesar do silêncio

Esperar o nascimento de uma criatura é motivo grande de novidade e de alegria. “Quando um menino nasce é sinal de que Deus segue tendo esperança nos homens” (Gandhi). E, no entanto, a ponto de chegar o nascimento de Jesus, sobre José se fecha a sombra da dúvida, a incerteza, a turvação. Um homem profundamente religioso, e não atinge o saber que Deus quer dele, num momento tão difícil. O silêncio de Deus faz-se espesso. Ao final, amanhece a luz e o mensageiro revela o projeto de Deus.

Chegarão até a nós momentos de confusão e desanimo. Não foram reveladoras as dúvidas terríveis de Teresa de Calcutá? Em outra ocasião, será uma morte, um fracasso, uma doença cruel. Como a José, nos toca esperar, orar e confiar. O Senhor não nos abandona, seguimos sendo “filhos amados”. Depois da noite escura, brilhará o sol de madrugada.

E muito importante. Talvez sejam outros os que se debatem nesta situação de silêncio difícil, de desalento. Pois então toca-nos colocar o ombro como apoio para os outros para dizer a palavra oportuna, para aconselhar, para levantar ânimos.

Não o duvidemos. Em todo momento, escutaremos a voz de Jesus: “Vossa tristeza converter-se-á em alegria”, “Eu estarei convosco todos os dias”, “O Pai vos ama”.

A Eucaristia é o “Deus conosco”. A cada menino que nasce, dizem as pessoas, “vem com um pão debaixo do braço”. O Menino da Virgem Maria  é “todo pão”, o pão que dá a Vida. E nós o comungamos.